Bets e o Varejo Brasileiro: um Risco Sistêmico em Escala
12 de agosto de 2026

Bets e o Varejo Brasileiro: um Risco Sistêmico em Escala Uma análise dos impactos das apostas online sobre consumo, endividamento e estratégia varejista Introdução.
Bets e o Varejo Brasileiro: um Risco Sistêmico em Escala
Uma análise dos impactos das apostas online sobre consumo, endividamento e estratégia varejista Introdução.
As apostas online deixaram de ser apenas uma nova forma de entretenimento para se transformar em uma variável econômica com capacidade de afetar o comportamento de consumo das famílias brasileiras. Para o varejo, o fenômeno merece atenção especial: recursos que antes poderiam ser destinados à compra de alimentos, roupas, eletroeletrônicos, lazer e outros produtos e serviços passaram a disputar espaço no orçamento familiar com as plataformas de apostas.
Os números reunidos no estudo são expressivos. O Brasil teria se consolidado, em menos de quatro anos, como o terceiro maior mercado global de apostas online. Dados apresentados com base no Banco Central indicam gastos mensais entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões no primeiro trimestre de 2025. Pela anualização utilizada no estudo, isso representa aproximadamente R$ 300 bilhões por ano.
A questão que precisa ser discutida pelo varejo, portanto, não é se as bets cresceram. É de onde estão saindo os recursos que financiam esse crescimento.
O dinheiro das apostas também sai do consumo
O orçamento de uma família é limitado. Quando uma nova categoria de despesa passa a absorver parcela relevante da renda, outras despesas precisam ser reduzidas. É justamente nesse ponto que as bets passam a interessar diretamente ao varejo. Segundo os dados apresentados no estudo, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) estimou que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, o varejo brasileiro deixou de receber R$ 143,82 bilhões em vendas em decorrência do desvio de renda para as plataformas de apostas. O valor equivale aproximadamente a dois períodos completos de vendas de Natal.
Não estamos, portanto, diante apenas de uma mudança na forma como as pessoas utilizam seu tempo livre. Estamos diante de uma nova disputa pelo share of wallet, isto é, pela participação de cada categoria no orçamento disponível do consumidor. E essa disputa é especialmente preocupante porque, diferentemente da compra de um produto, o dinheiro perdido em uma aposta não gera um bem, patrimônio ou ativo para a família.
O primeiro impacto aparece no carrinho de compras No varejo alimentar, os efeitos aparecem de duas maneiras: redução do volume comprado e aceleração do chamado trade down. Trade down é o movimento pelo qual o consumidor substitui produtos de maior valor por alternativas mais baratas.
Pesquisa da Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting + Technology, citada no estudo, indica que 19% dos apostadores reduziram gastos em supermercados para sustentar o hábito de apostar. O material também registra a percepção do CEO do Assaí de que o movimento de trade down tem sido particularmente relevante no Nordeste e entre consumidores das classes C, D e E.
Esse comportamento cria uma sequência perigosa para o varejista: menos renda disponível → menor volume de compras → produtos mais baratos → pressão sobre ticket médio → pressão sobre margem. Portanto, o impacto não ocorre somente no faturamento. Ele pode chegar diretamente à rentabilidade.
O varejo não alimentar pode sofrer ainda mais Quando o orçamento familiar fica pressionado, normalmente os gastos discricionários são os primeiros a ser adiados. Uma família pode postergar a troca de uma televisão, de um celular ou de uma roupa. Pode reduzir idas a restaurantes, pedidos de delivery e despesas com lazer.
O estudo aponta que 23% dos apostadores deixaram de comprar itens de vestuário para sustentar gastos com apostas, percentual superior aos 19% identificados em supermercados. O material também destaca impactos em eletroeletrônicos, bares, restaurantes, delivery, roupas e acessórios.
Isso significa que as bets precisam começar a ser consideradas nos modelos de planejamento comercial das empresas. Uma queda de vendas não necessariamente estará associada apenas a preço, concorrência, juros, inflação ou desemprego. Pode existir uma nova variável disputando silenciosamente o orçamento do consumidor.
O problema se agrava quando as apostas encontram o endividamento.
Existe ainda uma segunda dimensão que preocupa o varejo: o comprometimento financeiro das famílias. O estudo do Ibevar/FIA Business School citado no material associa o crescimento das apostas ao aumento do endividamento familiar. Segundo os dados apresentados, para cada aumento de 1% nos gastos com apostas, o endividamento cresce 0,23%.
Para o varejo, essa relação tem consequências importantes. Um consumidor mais endividado possui menor capacidade de consumo futuro e pode representar maior risco para empresas que operam crediário próprio ou outras modalidades de financiamento. Forma-se, assim, um círculo potencialmente prejudicial: aposta → redução da renda disponível → redução do consumo → endividamento → inadimplência → menor capacidade de consumo futuro.
Um paradoxo que merece atenção.
O material destaca um cenário em que emprego e renda apresentam evolução positiva, enquanto o consumo perde força e o trade down se intensifica. O Índice Diário de Atividade Econômica do Itaú, citado no documento, registrou queda de 1,7% no consumo em junho de 2026 em relação a maio, representando o terceiro recuo mensal consecutivo.
Não se deve concluir que as bets sejam a única explicação para esse comportamento. Consumo é resultado de diversas variáveis econômicas e sociais. Mas ignorar um fluxo financeiro dessa magnitude também seria um erro.
Durante décadas, o varejo aprendeu a acompanhar inflação, juros, emprego, renda, crédito e confiança do consumidor. Agora, talvez seja necessário incorporar uma nova variável aos modelos de previsão de demanda: quanto do orçamento do cliente está migrando para apostas?
O impacto ultrapassa a loja
A redução do consumo não termina no caixa do varejista. Quando uma loja vende menos, compra menos da indústria. Quando ocorre trade down, fabricantes precisam adaptar mix, embalagem, preço e posicionamento. Se a demanda por produtos premium diminui, margens podem ser comprimidas em diferentes pontos da cadeia.
O estudo chama atenção para esse efeito multiplicador: a redução da demanda no varejo se propaga para fabricantes, fornecedores e empregos ligados à economia real. Portanto, discutir bets e varejo significa discutir também indústria, emprego, arrecadação e desenvolvimento econômico.
O que o varejo pode fazer?
O varejista individualmente não controla o crescimento das apostas, mas pode — e deve — adaptar sua estratégia. A primeira providência é incorporar essa variável aos modelos de demanda, comparando comportamento de ticket médio, frequência, inadimplência e mix por região e perfil socioeconômico.
A segunda é preparar o portfólio para o trade down. Marcas próprias, produtos econômicos e uma arquitetura de preços bem estruturada tornam-se ainda mais relevantes. O desafio é oferecer alternativas de menor preço sem simplesmente destruir margem.
A terceira é fortalecer programas de fidelidade, aumentando a percepção de valor da compra e oferecendo razões concretas para que o cliente permaneça dentro do ecossistema do varejista.
A quarta envolve crédito responsável. Empresas que financiam diretamente seus clientes precisam aperfeiçoar seus modelos de avaliação de risco e acompanhar novas causas de comprometimento da renda.
A quinta dimensão é a atuação institucional. Entidades representativas do comércio precisam participar do debate sobre publicidade, proteção de consumidores vulneráveis, crédito e regulamentação das apostas. O material mostra que Abras, IDV, CNC e outras instituições já passaram a tratar o assunto como questão relevante para o setor.
Conclusão: uma nova variável estratégica
A principal conclusão não é que as apostas sejam responsáveis por todos os problemas atuais do consumo brasileiro. Essa seria uma simplificação. A conclusão mais importante é outra: as bets atingiram uma dimensão econômica grande demais para serem ignoradas pelo varejo.
Elas disputam renda disponível, podem modificar frequência de compra, pressionar ticket médio, acelerar o trade down, contribuir para o endividamento e alterar a composição da demanda.
Para quem administra uma empresa, existe uma lição estratégica maior: não basta olhar para dentro da loja. O empresário precisa compreender todas as forças que disputam o dinheiro, o tempo e a atenção de seu cliente.
Durante muitos anos, consideramos concorrente quem vendia o mesmo produto. Depois aprendemos que também competimos com outros canais, marketplaces e novas formas de consumo. Agora surge uma disputa diferente.
As bets não vendem alimentos, roupas, eletrodomésticos ou materiais de construção. Mas disputam o mesmo recurso que permite ao consumidor comprar tudo isso: a renda disponível.
Quando uma nova atividade passa a movimentar centenas de bilhões de reais, deixa de ser apenas uma questão comportamental. Torna-se uma variável estratégica para o varejo brasileiro.
Fontes e referências utilizadas
• Banco Central do Brasil — dados sobre gastos com apostas via Pix e estimativas de movimentação mensal citadas no estudo. • Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) — estimativas de perdas de vendas do varejo, endividamento e inadimplência associados às bets. • Ibevar / FIA Business School — estudo sobre a associação entre gastos com apostas e endividamento familiar. • Tendências Consultoria / Peers Consulting + Technology — estudos sobre impacto das apostas no consumo das famílias, supermercados, vestuário e mercado ilegal. • ANBIMA — dados sobre a penetração das apostas online entre brasileiros. • PwC / Strategy& Brasil — estudos sobre apostas esportivas, consumo e situação financeira das famílias. • Assaí Atacadista — declarações e evidências operacionais sobre redução de volume e trade down, especialmente no Nordeste e nas classes C, D e E. • Itaú — Índice Diário de Atividade Econômica citado na análise de consumo. • CPI das Bets – Senado Federal — relatório e recomendações sobre regulação, publicidade e proteção dos apostadores. • Tribunal de Contas da União (TCU) — ação de controle e acompanhamento dos impactos do mercado de apostas. • ABRAS — dados do varejo alimentar e atuação institucional do setor. • IDV – Instituto para Desenvolvimento do Varejo — atuação institucional no debate sobre impactos das bets.
